Madonna – Ray Of Light [1998]

 

Muito do que se remete à Madonna gira em torno daquela imagem de ninfomaníaca da era Like a Virgin em meados dos anos 80 e do início dos anos 90 com a fase Sex da cantora. E com razão até, pois foi essa a face mais divulgada da “queen” do pop, de apelativa e vazia. Mesmo que muitas outras aventuras musicais da cantora tenham surgido nesse tempo todo, a imagem oitentista parece estigmatizada na cabeça da maioria, infelizmente. Quando conheci a discografia da Madonna — principalmente a dos anos 90 — fui pego de surpresa por ótimos álbuns pop que definitivamente a qualificam como majestade do gênero. Ray of Light talvez seja o mais marcante deles.

Lançado em 1998, seu sétimo álbum tem origem de uma Madonna recentemente mãe e mais espiritualizada, diferente em muitos aspectos daquela Girlie do começo da década. A grande aposta de RoL é a fusão da dance music tão em alta na época com timbres místicos com os quais a cantora aparentemente se familiarizou quando passou a praticar Cabala (um tipo de interpretação esotérica do judaísmo) e também canções com guitarras de forte presença e base downtempo, lembrando algo do na época eclodido Trip-Hop. Encaixada nessa última categoria está “Swim”, uma das melhores faixas do álbum com ritmo intenso mas ao mesmo tempo relaxante, que prossegue “Drowned World/Substitute For Love”, faixa de abertura que perde por seu decorrer enrolado até os três minutos e tanto, quando se densifica e começa a fazer juz ao nome Drowned, lutando contra sua submersão até a lucidez de “Swim”. Deixando a água de lado, a faixa título “Ray Of Light” contagia por seu ritmo acelerado, uma urgência mesclada a felicidade desesperadora de uma pessoa ansiosa por se conhecer, voando mais rápido que a própria luz . Como um dos maiores hits do álbum, carrega um ótimo videoclipe feito da captura da vida cotidiana sob uma velocidade entorpecente, como a música.  “Candy Perfume Girl” segue o mesmo estilo de ‘Swim”, mas comete o erro de ter uma letra repetitiva  e desinteressante. Letra então é o de menos na frenética “Skin”, uma viagem de 6 minutos pelo peso oriental que impera no disco deste ponto em diante. A loucura desta faixa faz de “Ray Of Light” um acústico; ela parece dar girar em certos momentos em outros assemelha-se a andar sobre uma motocicleta em meio a cidade indiana de Mumbai. Então, para quebrar o êxtase sonoro, aparece “Nothing Really Matters“, uma canção dançante suave que com um bom remix poderia se salvar do fracasso comercial que foi. De fato esta foi uma péssima escolha de single e poderia ter dado lugar à faixa seguinte, “Sky Fits Heaven”, a equação do uptempo de Skin mais a leveza de sua precessora. O mantra “Shanti/Ashtangi” não representa muito mais que algo fraco para o álbum como um todo, tendo visivelmente elementos repetidos e não prende a atenção. “Frozen” vem logo após. Perceptivelmente uma das melhores músicas da cantora de todos os tempos e carro-chefe do álbum, seu clima denso e místico cria uma canção sólida e bem feita, dando destaque à potência inédita da voz da Madonna, talvez uma herança dos treinos vocais feitos para interpretar o filme “Evita”, dois anos antes.  “Power of Goodbye” da extensão à bela voz empregada anteriormente, mas que agora  parece em certos momentos forçada. A beleza desta canção poderia fechar maravilhosamente este disco, porém mais vem adiante. “To Have and Not To Hold” é envolvente e precisou ser menos arrastada para competir entre as boas do “Ray Of Light”. Poderia ter acabado aqui, mas as músicas seguintes precisam de atenção por pelo menos ter havido a tentativa. “Little Star” é uma homenagem à filha recém-nascida Lourdes Maria, contudo é arrastada e de tão intimista soa tediosa. “Mer Girl” foi uma tentativa da cantora por demais experimetal, acabou não dando certo por ser silenciosa demais, quando a voz da cantora urge por destaque e este é, ainda, um álbum pop. Poderia muito bem ter dado certo se o canto estivesse numa atmosfera tão densa quando o resto.

Apesar de não ser cem por cento, “Ray Of Light” tem seu peso na vasta discografia da Madonna. É bonito em muitos momentos, é agitado em outros, é carregado de sentimentos em todos. Ouvi-lo é quase como lamentar por ser de uma cantora comercial que a qualquer momento mudaria sua sonoridade para algo tão distante disso. Preocupação sem nexo se visto que seus antecessores daquela mesma década mostraram-se lares de boas músicas, porém não atingiram um nível tão alto quanto este na soma da obra. Por sorte, seus sucessores merecem atenção também: os álbuns lançados até 2005 mantiveram qualidade surpreendente, juntamente das turnês de lucros milionários. É de assustar que a mesma voz de “Frozen” e “Swim” seja agora associada ao péssimo Hard Candy. É, Madonna, o melhor a se fazer é se inspirar em seu para seu passado e em 2011 aparecer com algo ao menos rico como foram os bons discos de outrora.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Comentando

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s