Adoro fazer listas, embora enumerar seus itens seja uma coisa que me desagrada, tanto quanto dar notas a coisas. Já tentei fazer listas ordenadas, mas no fim algo soa errado. Números não são tão expressivos para mim. Às vezes, utilizo-os como simples forma de organização, nada mais.
Deixando itens pessoais de lado, estes primeiros meses de 2010 d.C mostraram-se realmente bons musicalmente. No ínicio do ano, dispus minhas expectativas aqui mesmo acerca de lançamentos anunciados e algumas coisas que aguardava esperançosamente. Algumas até ganharam comentários aqui (como Husky Rescue e Crystal Castles) , outros apenas foram ouvidos — em exaustão até –, sem que minha opinião transcrita fosse. Agora, seis meses após o post, já é tempo de se produzir um levantamento.
’08′s revival?
Desde o ano passado surgia uma sensação de que um dos bons anos musicais da década fosse voltar, graças à massa de artistas debutantes daqueles idos que anunciaram lançamentos para 2010. Um dos primeiros a lançar foram os estadunidenses do Vampire Weekend, que em janeiro, após algum tempo de enrolação, liberaram o Contra e suas ótimas 10 faixas. Este segundo disco me fez olhar o VW de outra forma e finalmente entendi melhor o que tanto viam neles, coisa que com o debut de dois anos atrás ficou meio vago para mim. Dou destaque à suavidade que Contra possui.
Todavia, o que realmente me entusiasmou foi a volta de duas das minhas bandas favoritas: Crystal Castles e MGMT. Ambos mudaram suas sonoridade em diferentes escalas:enquanto o primeiro deixava o clima festeiro e descompromissado para migrarem à algo mais maduro e singular, o outro mudou naturalmente de rumo, como um barco à vela.
A nova empreitada de Andrew e Ben foi recebida como uma drástica mudança por alguns, mas não houve nada abrupto. Vale a pena voltar lá no debut, Oracular Spectacular, e notarmos que, mansamente, as músicas encaminham para o horizonte numa jornada que se inicia nas artificiais Time to Pretend, Kids e Eletric Feel e vai naturalizando a medida que os sintetizadores deixam de agir em evidência e um agradável psicodelismo
nos envolve.Congratulations soa como uma progressão natural dessa viagem, que como importante ponto de passagem teve o single Metanoia e seus quase 14 minutos de um boas-vindas para o que se seguiu a ele:nove músicas belamente produzidas e mesmo que imprevisíveis e sem qualquer padrão, constituem um disco fácil, destes para se ouvir várias vezes seguidas.
Facil é uma palavra que exige cuidado ao ser empregada no segundo Crystal Castles. Enquanto Celesticas e Years of Silence mostram-se inonfesivas e açucaradamente pops, outras Doe Deers e Faintings Spells assustam os despreparados. Mas o homônimo comentado nesse post mantém-se equilibrado entre esses dois extremos, às vezes sobre uma ponte estável, às vezes numa corda trêmulante.
Let’s get started
Se 2010 marca alguns retornos, o mesmo é a maternidade de notáveis.
Delphic é uma daquelas bandas tidas como futuristas, mas que na verdade nos situam no tempo mostrando-nos que o futuro é agora. A obra de estréia leva o nome de uma das mais interessantes faixas eletrônicas do ano, Acolyte,que percorre uma extensão de nove minutos (que mais parece quatro), marcada por uma crescente de intensidade quase sistematica. A banda britânica foi uma das aposta da BBC para 2010, assim como Marina and the Diamonds e Ellie Goulding.Mais uma banda que deu as caras há pouco foi o Two Door Cinema Club. Boa banda até que é, mas não passa aquele sentido de novidade, sendo facilmente comparável à bandas que traçaram o repertório indie dos anos 2000. O curioso We Are The World tinha tudo para ser uma banda que me agradasse: musicalidade abstrata, preocupação visual e um toque soturno.Mas estranhamente suas músicas são secas,falta algo nesses norte americanos que ainda não descobri o que é. Teorizo que o problema esteja na voz:não é ruim, mas está deslocada na proposta das músicas por ser muito palpável, beirando o comum. Não é nada novo, mas o primeiro álbum solo de Jónsi Birgisson, do Sigur Rós, merece menção honrosa aqui. Cada música de Go parece ter vida. Não tem como separar instrumental e voz – tudo funciona como um único ser. com certeza este é um dos álbuns mais impressionantes que já ouvi.
Mais e mais
Outros destaques de 2010:
The Bird and the Bee -Interpreting the Master Vol. 1: a tribute to Daryl Hall and John Oates
Mais um bom álbum da dupla americana.Desta vez fazendo releituras, Inara George e Greg Kustin trazem os anos setenta de volta, mas sob uma roupagem nova, nada com muita cara de revival.Este é o primeiro volume da série Interpreting the Masters e por enquanto não há nada confirmado sobre os próximos, que, espero, sigam a linha de qualidade deste.
Scissor Sisters – Night Work
Pegue os dois álbuns anteriores e junte o que há de mais glam, dançante e, por que não, safado deles. Provavelmente sairá algo próximo de Night Work. O nome e a capa deixam claro que nenhuma “Land of a Thousand Words” ou “Mary” aparerecerá para te deixar tomar fôlego, são 45 minutos de Night Party.
Christina Aguilera – Bionic (!)
O título mais correto seria “meio Bionic”, pois infelizmente apenas parte dele é interessante.O começo é realmente instigante: “Bionic”, se fosse um pouco mais suja, poderia até ser confundida com uma música da M.I.A., que aliás assina a letra e parte do vocal de “Elastic Love”, melhor faixa do disco.Até “Glam” Bionic é bom. A partir daí, seguem-se faixas tediosas, realmente Aguileras.Depois de várias faixas algo interessante parece surgir: “My Girls”, que anima no começo mas logo se perde e “Birds of Prey” (edição deluxe),mais uma das boas que nem parecem ser da Christina.
Husky Rescue – Ship of Light
Mais um dos meus preferidos. Confesso que não é tão cativante quanto os álbuns anteriores da banda, mas ainda assim mantém o altíssimo nível. Mais comentários aqui.
M.I.A. – /\/\/\Y/\
Criticador, bipolar e forte. Esse é o terceiro álbum da cingalesa que só agora fui descobrir o potencial.Não tem aquela facilidade de Arular e não é feito para agradar como o Kala. Há raiva em todas as músicas. É extremamente instável:uma tresloucada Teqkilla se torna a controlada Lovalot, a mais-do-que-furiosa Meds and Feds é logo substituída pela melodia amável de Tell Me Why. Os singles desse álbum enganam facilmente,nada é parecido nele.
Ainda faltam pouco menos de 6 meses para o término do ano, e até lá, claro, muitas coisas serão lançadas e anunciadas. Esperemos um reflexo desses primeiros meses nos próximos que se seguem.

Continua com os posts!!!